Conforme esclarece o doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, a dermatite de estase é uma das condições dermatológicas mais comuns na terceira idade e uma das que mais frequentemente são tratadas de forma inadequada, porque seus sintomas são atribuídos a outras causas. O idoso com pernas escuras, inchadas e que coçam intensamente frequentemente recebe diagnóstico de alergia, eczema ou infecção fúngica e é tratado com cremes e antifúngicos que não resolvem o problema porque a causa real está na circulação venosa, não na pele em si.
Veja neste artigo o que é a dermatite de estase, por que ela se desenvolve no idoso e o que realmente trata essa condição que compromete tanto o conforto quanto a qualidade de vida de quem convive com ela.
O que é a dermatite de estase e como ela se desenvolve?
A dermatite de estase é uma inflamação crônica da pele das pernas causada pela insuficiência venosa crônica, condição em que as veias das pernas perdem a capacidade de retornar o sangue adequadamente para o coração. Quando o sangue se acumula nas veias das pernas por longos períodos, a pressão aumentada força o extravasamento de líquido, proteínas e células sanguíneas para os tecidos ao redor. Esse extravasamento desencadeia uma reação inflamatória crônica na pele que produz os sintomas característicos da dermatite de estase: coceira intensa, vermelhidão, descamação, espessamento progressivo da pele e pigmentação acastanhada que resulta do depósito de hemossiderina, produto da degradação da hemoglobina das hemácias extravasadas.
Como detalha Yuri Silva Portela, o envelhecimento favorece o desenvolvimento da dermatite de estase por múltiplos mecanismos: as válvulas venosas que impedem o refluxo do sangue perdem eficiência com a idade, a musculatura da panturrilha que funciona como bomba venosa durante a caminhada atrofia com o sedentarismo e a pele envelhecida tem menor capacidade de resistir aos danos produzidos pela inflamação crônica. Esses fatores se somam de forma que explica por que a dermatite de estase é tão prevalente na terceira idade e tão rara em adultos jovens.
Como distinguir a dermatite de estase de outras condições que imitam seus sintomas?
A dermatite de estase tem características específicas que a diferenciam de outras condições que produzem coceira e alterações na pele das pernas. Ela afeta tipicamente a região acima do tornozelo e abaixo do joelho, especialmente na face interna da perna, e raramente acomete os pés ou as coxas. As alterações de pele frequentemente se acompanham de edema que piora ao final do dia e melhora com a elevação das pernas. A pigmentação acastanhada característica, causada pelo depósito de hemossiderina, é um marcador quase específico da condição.

Sob a ótica de Yuri Silva Portela, a distinção entre dermatite de estase e celulite bacteriana é clinicamente importante e frequentemente difícil: ambas produzem vermelhidão, calor e edema na perna, mas a celulite é uma infecção aguda que exige antibióticos imediatos, enquanto a dermatite de estase é uma condição crônica que não responde a antibióticos. O idoso com dermatite de estase crônica que desenvolve celulite sobre a pele já comprometida, o que ocorre com frequência aumentada nessa condição, precisa de tratamento combinado que reconheça as duas condições simultaneamente.
O que realmente trata a dermatite de estase?
O tratamento eficaz da dermatite de estase precisa abordar a causa subjacente, a insuficiência venosa, e não apenas os sintomas na pele. A compressão elástica com meias de compressão de graduação adequada é a intervenção com maior evidência de benefício sobre a insuficiência venosa e, consequentemente, sobre a dermatite de estase. Ela reduz o extravasamento venoso, diminui o edema e, ao longo de semanas de uso consistente, melhora progressivamente as alterações cutâneas.
Conforme pondera Yuri Silva Portela, a elevação das pernas acima do nível do coração por períodos regulares ao longo do dia complementa a compressão ao favorecer o retorno venoso pela ação da gravidade. A caminhada regular, ao ativar a bomba muscular da panturrilha, é igualmente importante e frequentemente subestimada como intervenção terapêutica. Para os sintomas locais de coceira e inflamação, corticoides tópicos de baixa potência podem ser usados por períodos curtos, mas nunca como tratamento principal sem que a causa vascular seja abordada simultaneamente.
Complicações e quando buscar avaliação especializada
A dermatite de estase não tratada adequadamente progride para complicações que comprometem significativamente a qualidade de vida e a mobilidade do idoso. A lipodermatoesclerose, endurecimento progressivo da pele e do tecido subcutâneo, produz uma perna com aparência de garrafa invertida, que é dolorosa e muito mais difícil de tratar do que a dermatite inicial. As úlceras venosas, feridas abertas que se formam sobre a pele cronicamente inflamada, são uma das complicações mais graves e de mais difícil cicatrização que a dermatite de estase pode produzir.
Yuri Silva Portela frisa que o idoso com pernas escuras e que coçam merece avaliação dermatológica e vascular antes de ser tratado empiricamente com cremes que não resolverão o problema subjacente. Identificar a insuficiência venosa como causa e tratá-la adequadamente é o que separa o controle eficaz da dermatite de estase do ciclo interminável de sintomas que retornam porque a causa nunca foi endereçada.
