Parceria com a Unesco oferece formação em cinco módulos pela Plataforma Mais Professores, com foco no uso ético da IA em sala de aula.
Enquanto o debate sobre o papel da inteligência artificial na educação segue em aberto, o Ministério da Educação decidiu agir diretamente sobre a formação de quem está na ponta desse processo: os professores. No dia 26 de junho, o MEC lançou o curso “IA na prática docente: uso ético, criativo e pedagógico, ensino fundamental”, uma iniciativa gratuita voltada aos professores dos anos finais dessa etapa, feita em parceria com a Unesco. A formação integra a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas e chega em um momento no qual pesquisas recentes mostram que a maioria dos estudantes e professores brasileiros já usa ferramentas de IA no dia a dia escolar, muitas vezes sem orientação formal sobre como fazer isso de maneira segura e produtiva. A seguir, veja o que compõe o curso, por que ele surge agora e como se conecta a um movimento mais amplo de regulação do tema na educação brasileira.
O que engloba o novo curso do MEC
O curso é dividido em cinco módulos e está disponível de forma totalmente gratuita na Plataforma Mais Professores. O primeiro módulo trata da introdução à inteligência artificial, cobrindo fundamentos históricos e técnicos como evolução da tecnologia, algoritmos, aprendizado de máquina e redes neurais, além de discutir o ciclo de vida dos sistemas de IA e a interação entre humanos e máquinas. Já o segundo módulo, batizado de letramento em IA, se apoia em três eixos: letramento em dados, em algoritmos e em modelos, abordando temas como curadoria de dados, vieses algorítmicos e diferenças entre aprendizagem supervisionada e não supervisionada.
O terceiro eixo da formação discute os impactos sociais da inteligência artificial, incluindo transformações no mundo do trabalho, dinâmicas sociais e sustentabilidade ambiental, temas como a chamada indústria 5.0 e as implicações políticas da adoção dessas tecnologias em larga escala. A iniciativa faz parte de um projeto mais amplo da Unesco chamado Escolas Abertas Habilitadas por meio das Tecnologias para Todos, desenvolvido globalmente com apoio da Huawei. A primeira fase do projeto ocorreu no Egito, na Etiópia e em Gana, enquanto a segunda fase, que vai de 2024 a 2026, inclui o Brasil e a Tailândia, com continuidade também no território egípcio.
Contexto: como a IA já ocupa espaço nas escolas e universidades
O lançamento do curso não surge isolado. Uma pesquisa divulgada no fim de 2025 pela Fundação Itaú revelou que 84% dos estudantes e 79% dos professores brasileiros já haviam utilizado alguma ferramenta de inteligência artificial, principalmente para realizar pesquisas escolares. O dado que mais chama atenção, no entanto, é que apenas 32% desses estudantes relataram ter recebido qualquer tipo de orientação da escola sobre como usar essas ferramentas de forma adequada, um espaço que o novo curso do MEC busca começar a preencher, ainda que de forma inicial e restrita aos professores dos anos finais do fundamental.
O movimento não fica restrito à educação básica. Levantamento da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior mostrou que o conhecimento sobre IA entre universitários cresceu 11% em apenas um ano, com o uso regular da tecnologia subindo 18% no mesmo período. Ao mesmo tempo, o estudo identificou preocupações relevantes entre os próprios estudantes: 52% mencionaram a falta de interação humana como um problema, e 49% apontaram risco de dependência excessiva de ferramentas sujeitas a falhas. Diante desse cenário, o Conselho Nacional de Educação criou uma comissão específica para propor diretrizes sobre o uso da IA no ensino superior, sinalizando que a regulação do tema deve avançar tanto na educação básica quanto na universitária ao longo deste ano.
O curso lançado pelo MEC é gratuito, tem carga totalmente digital e está disponível imediatamente na Plataforma Mais Professores para qualquer docente dos anos finais do ensino fundamental da rede pública que queira se inscrever. A expectativa da Secretaria de Educação Básica é que a formação sirva de base para práticas mais seguras dentro da sala de aula, reduzindo o uso desorientado de ferramentas que já fazem parte da rotina de boa parte dos estudantes brasileiros. Para quem acompanha o setor educacional, o lançamento reforça uma tendência que deve se intensificar nos próximos meses: a chegada de diretrizes mais claras, tanto na educação básica quanto no ensino superior, sobre como equilibrar inovação tecnológica e formação crítica dos estudantes.
Fontes: gov.br/mec | abmes.org.br
